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Exposição Virtual + exposições

Sharing Languages – Duas gerações de artistas em Lisboa

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Fichas dos artistas

› Ana Silva
› Arlinda Frota
› Armanda Alves
› Eduarda Costa Ferraz
› Eugénia Mussa
› Sílvia Moreira
› Teodolinda Varela


Sharing Languages reúne o trabalho de duas gerações de artistas contemporâneas que vivem e trabalham em Lisboa. Todas estas artistas fazem parte da arquivo Artafrica, mas nem todas são africanas ou se definem como tal. A sua presença nesta exposição testemunha o carácter inevitavelmente em aberto de qualquer definição baseada em critérios identitários. As biografias transformam-se, novas identidades são progressivamente negociadas e a linguagem da expressão artística explora formas alternativas para contar a experiência do mundo presente.

Numa época em que os discursos retóricos acerca do medo de conflitos baseados em diferenças culturais dominam o debate internacional, a arte contemporânea sugere novas linguagens e cria plataformas de encontro, através da experimenação com obras multi-performativas. Enquanto o mundo da política tenta instrumentalizar identidades reificadas, o mundo da arte subverte o carácter retórico destas construções identitárias, propondo novas linguagens artísticas.

Assim, esta exposição apresenta duas gerações de mulheres, mostrando maneiras diferentes de exprimir experiências individuais unidas pelo desejo comum de experimentação.

Começamos este percurso com o trabalho de Teodolinda Varela, uma jovem artista nascida em Cascais de pais cabo-verdianos e formada na Escola de Artes Visuais Maumaus de Lisboa. Varela demonstra um equilíbrio natural entre diversas formas de arte, passando com facilidade da vídeo-arte à fotografia, da performance de rua à tapeçaria artística. No seu trabalho mais recente, leva a sua pesquisa até explorações mais radicais. Em “Narciso on the roof”, uma estátua viva que apresentou há pouco tempo num festival em Arnhem, utiliza o seu corpo como uma escultura, questionando o conceito de individualidade e de comunidade através da metáfora do espelho e da lenda de Narciso. Em “Tapete castanho”, ao contrário, move-se num espaço limite entre arte e design, oferecendo uma caricatura implícita da sociedade consumista. Para fazer “Tapete castanho” reciclou os tecidos que recolheu durante o seu trabalho para uma ONG, transformando aquilo que a sociedade considera como lixo num artigo mercadorial.

Ana Silva, uma jovem pintora angolana, desenvolveu a sua obra, explorando a utilização de diferentes materiais (madeira, metal, tecidos), entrelaçando-a com uma exploração atenta do equilíbrio entre cores e sombras. “Quando eu estava em Angola era obrigada a pintar sobre quaisquer materiais – contou-me Ana durante uma entrevista – porque era difícil arranjar telas, mas eu gostava disso e agora que posso arranjar telas com facilidade quero voltar a experimentar”. O ciclo de obras aqui apresentadas é constituído por  pinturas sobre folhas de metal nas quais Ana utiliza oxidação e cores acrílicas para obter efeitos de luz e de perspectiva muito interessantes.

A obra de Eduarda Costa Ferraz, nascida em Angola, mas residente em Portugal desde o fim dos anos 70, testemunha o carácter transgeracional deste desejo de experimentação. Eduarda formou-se principalmente como bailarina e as suas obras exprimem o movimento em particular. As duas obras apresentadas fazem parte da sua produção mais recente, na qual a memória profundamente sentida da sua infância em Angola acompanha uma reflexão sobre problemáticas contemporâneas, tais como a ecologia e a marginalização social.

Arlinda Frota, muito próxima da Eduarda em termos de experiência biográfica, também nasceu e cresceu em Angola, mas abandonou o país quando começou a guerra civil. Todavia, a sua formação artística é muito diferente da de Eduarda e profundamente original. Começou a pintar quando vivia em Macau e na Coreia do Sul, aprendendo as técnicas de pintura asiáticas sobre cerâmica e sobre tecidos. Como mostram os dois trabalhos aqui apresentados, Frota conserva esta herança, criando um mistura original da sua biografia africana com páticas estéticas asiáticas.

A obra de Eugénia Mussa, uma jovem pintora moçambicana que vive em Lisboa desde a sua infância, acrescenta uma outra interessante perspectiva a desta colecção, graças ao seu intenso empenho em confrontar-se com os clássicos da arte moderna ocidental. Os seus primeiros desenhos, muitos mas abstractos, distinguem-se profundamente da sua produção actual, que consiste numa reelaboração pessoal da herança modernista.

É interessante olhar para o trabalho de Armanda Alves como contrastando com o de Eugénia Mussa. Alves é uma artista autodidacta, nascida em Angola, que trabalha com uma liberdade técnica total. Como me contou numa entrevista, pinta sobre qualquer tipo de superfície, utilizando todos os tipos de objectos, mesmo o seu próprio corpo, como pincel.

Finalmente, esta exposição apresenta o trabalho de Sílvia Moreira, uma jovem artista de performance e de vídeo que vive em Lisboa. A obra da Moreira é uma das mais conceptuais entre os trabalhos aqui apresentados. Durante a sua carreira artística Moreira concentrou o seu trabalho especialmente nos temas da linguagem e da tradução. Como me explicou numa entrevista, “a linguagem é poder e precisamos de compreender quem a controla para compreendermos o funcionamento da sociedade”. Se a linguagem é poder, sugere Moreira, então a tradução e a crioulização podem ser actos políticos. Nos dois vídeos apresentados, a artista desenvolve a mesma temática a partir de duas perspectivas diferentes. Em “Afago”, uma canção de embalar tradicional de Israel foi traduzida para linguagem gestual e depois coreografada. As palavras tornam-se gestos e, com a música, criam uma linguagem artística original, traduzindo o texto em dança. O segundo vídeo, “Volapuk”, o mais recente na obra da Moreira, é uma performance que apresenta os resultados de uma pesquisa que a artista fez sobre a língua Volapuk. Esta língua foi inventada no fim do século XIX para encontrar um instrumento de comunicação universal que permitisse evitar a hegemonia de uma cultura sobre outra. No vídeo, Sílvia Moreira dá uma aula em Volapuk, explicando a história desta língua.

Ao centrar a atenção na tradução e na linguagem, o trabalho da Moreira propõe-nos um modo de concluirmos este itinerário. De facto, mesmo que os trabalhos apresentados nesta exposição sejam muito diferentes, todos partilham uma mesma tendência. Através da experimentação com técnicas e estilos diferentes, eles traduzem experiências culturais diversas para uma linguagem artística comum, uma linguagem que nos permite olhar o mundo contemporâneo a partir de uma perspectiva alternativa.

Alessandro Jedlowski

 

 



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  Última actualização: Sep 2010